O Ilê Aiyê nasceu há 50 anos como um ato de resistência, em um contexto onde os blocos tradicionais do carnaval de Salvador não permitiam que pessoas negras participassem como foliões. Em 1974, no bairro do Curuzu, Antônio Carlos Santos, conhecido como Vovô do Ilê, e outros jovens decidiram criar um bloco que valorizasse a cultura negra e fortalecesse a autoestima da população afrodescendente.
No palco do Scream Festival 2024, Vovô relembrou esse momento histórico e destacou os desafios enfrentados na criação do bloco:
“Os principais blocos da época não permitiam que negros saíssem como foliões, só podiam tocar percussão ou carregar alegorias. A gente observava isso e decidiu criar um bloco só de negão, aqui no maior bairro negro da cidade.”
Desde sua fundação, o Ilê Aiyê se posicionou como um símbolo de resistência ao racismo e de valorização das tradições africanas no Brasil. Seu desfile no carnaval de Salvador não só trouxe uma nova estética e musicalidade para a festa, mas também abriu caminho para outros blocos afro, como Olodum e Muzenza, consolidando a presença negra na maior festa popular do país.
O Ilê Aiyê e a Construção de uma Nova Identidade Negra
Ao longo de cinco décadas, o Ilê Aiyê não apenas revolucionou o carnaval, mas também redefiniu a forma como a população negra se vê e é vista pela sociedade. O bloco sempre exaltou a beleza negra em suas músicas e desfiles, sendo pioneiro em conceitos como a Beleza Negra, concurso que coroa a Deusa do Ébano, uma mulher negra que representa a força e ancestralidade afro-brasileira.
Durante o painel, Vovô reforçou o impacto do Ilê Aiyê na autoestima da população negra e na mudança da percepção sobre identidade racial:
“A música do Ilê tem que informar, tem que educar. Desde os anos 90, a gente já fazia o que hoje chamam de educação antirracista. Criamos cadernos educativos com as letras das músicas, contando a história do povo negro.”
A presença internacional do bloco também ajudou a disseminar a cultura afro-baiana para o mundo. O Ilê já se apresentou em mais de 30 países, tornando-se uma referência global.
Resistência Contra o Racismo Estrutural
Mesmo com todo o reconhecimento, o Ilê Aiyê ainda enfrenta barreiras para captar recursos e manter seus projetos sociais. Vovô criticou a dificuldade de atrair patrocinadores e o racismo presente no meio empresarial:
“Os empresários brasileiros, antes de serem capitalistas, são racistas. Eles deixam de ganhar dinheiro, mas não querem associar suas marcas ao povo negro.”
Essa realidade reflete um problema maior: Salvador, uma cidade com 80% da população negra, ainda tem baixa representatividade política e econômica. Como ressaltou Vovô, nunca houve um prefeito negro na cidade, e a presença de negros em cargos de poder ainda é limitada.
O Futuro da Cultura Negra na Bahia
Ao ser questionado sobre o futuro do Ilê Aiyê, Vovô destacou que a nova geração precisa dar continuidade ao movimento:
“Nós estamos preparando os jovens para segurar essa onda. Em algum momento, vamos entregar o bastão para eles.”
O Ilê Aiyê continua sendo um símbolo de resistência e de celebração da identidade negra. Mais do que um bloco de carnaval, é um movimento que há 50 anos transforma vidas e fortalece a cultura afro-brasileira.