O Brasil mudou nas últimas cinco décadas, mas a luta contra o racismo estrutural continua. Em Salvador, cidade com 80% da população negra, o Ilê Aiyê surgiu em 1974 como uma resposta à exclusão da população negra dos blocos tradicionais de carnaval. O movimento que nasceu no Curuzu cresceu e se tornou um símbolo da resistência negra, mas os desafios ainda são muitos.
Durante o Scream Festival 2024, Vovô do Ilê e Maurício Magalhães discutiram o avanço da representatividade negra e as barreiras que ainda impedem mudanças estruturais.
“O racismo em Salvador se deu bem. Ele é como a parede de um prédio: está sempre mudando a fachada, e a gente tem que mudar a estratégia para combatê-lo.” – Vovô do Ilê.
Essa reflexão reforça que, embora tenha havido conquistas, as estruturas do racismo permanecem, se adaptando às novas realidades.
A Exclusão da População Negra Ainda é Real
Mesmo com avanços, a representatividade negra nos espaços de poder ainda é baixa. Salvador nunca teve um prefeito negro, nem um número significativo de negros em cargos políticos e empresariais. Essa ausência reflete um problema estrutural: o controle econômico e político ainda está nas mãos da minoria branca.
“Aqui na Bahia, a população é 80% negra, mas nunca tivemos um prefeito negro. O problema não é só que branco não vota em negro, é que negro também não vota em negro.” – Vovô do Ilê.
Esse comportamento reflete como o racismo afeta a autoimagem da população negra, dificultando o fortalecimento de lideranças negras.
O Racismo no Mercado e o Papel das Marcas
A resistência ao fortalecimento da cultura negra não vem apenas da política, mas também do mercado. Empresas que lucram com a estética e a cultura afro-brasileira ainda relutam em apoiar financeiramente iniciativas negras.
“Os empresários brasileiros, antes de serem capitalistas, são racistas. Eles deixam de ganhar dinheiro, mas não querem associar suas marcas ao povo negro.” – Vovô do Ilê.
A dificuldade em captar patrocínios e incentivos mostra como o racismo estrutural se manifesta na economia. O Ilê Aiyê, apesar de ser reconhecido internacionalmente, enfrenta obstáculos para garantir financiamento contínuo para seus projetos sociais.
Representatividade Não é Apenas Ocupação de Espaço
Nos últimos anos, o debate sobre representatividade aumentou. Hoje, há mais negros na mídia, na publicidade e em eventos, mas muitas dessas mudanças ainda são superficiais. Ter pessoas negras em evidência sem mudanças reais nas estruturas de poder não resolve o problema.
Maurício Magalhães destacou a necessidade de transformar a criatividade e o talento da população negra em desenvolvimento econômico real:
“Precisamos vender o que damos de graça. Criatividade sem gerar valor não vale nada. E precisamos reter jovens talentosos na Bahia, porque estamos empobrecendo, inclusive intelectualmente.” – Maurício Magalhães.
A Bahia exporta talentos porque não oferece oportunidades. Muitos profissionais negros deixam o estado para buscar reconhecimento e melhores condições financeiras em outros lugares, um fenômeno que só reforça a desigualdade local.
O Que Precisa Mudar Nos Próximos 50 Anos?
Apesar das dificuldades, o fortalecimento da identidade negra e o aumento das discussões sobre racismo são avanços importantes. Mas para que as próximas gerações vivam uma realidade diferente, é preciso:
- Maior representatividade política, com negros ocupando cargos de decisão.
- Mudanças no mercado, com empresas valorizando e investindo em projetos liderados por negros.
- Educação antirracista, para que crianças cresçam entendendo sua história e sua importância.
- Retenção de talentos, garantindo oportunidades para que jovens negros prosperem sem precisar sair da Bahia.
Vovô do Ilê reforçou que a juventude precisa assumir essa luta:
“Nós estamos preparando os jovens para segurar essa onda. Em algum momento, vamos entregar o bastão para eles.”
A transformação vem do reconhecimento da história e da construção de novas narrativas. O Ilê Aiyê continua sendo uma referência, mas a mudança real exige um compromisso coletivo.
Os próximos 50 anos podem trazer avanços significativos, mas apenas se a luta continuar.