A criatividade sempre esteve presente nas comunidades de Salvador, impulsionando inovações culturais e comportamentais que, muitas vezes, ganham projeção nacional e internacional. No entanto, transformar essa criatividade em oportunidades de mercado ainda é um desafio. Durante o Scream Festival 2024, o painel “As tendências que nascem em Salvador: criatividade e inovação de nossas comunidades” reuniu especialistas para discutir como essas tendências podem se consolidar como modelos de negócios sustentáveis e inclusivos.
As comunidades como polos de inovação
Segundo Suzana Coelho, CEO do Instituto Afetto, as periferias de Salvador estão repletas de projetos inovadores que surgem da necessidade de sobrevivência e resistência. “As comunidades não param. Elas estão vivenciando coisas novas todos os dias. O grande desafio é garantir que essas ideias sejam vistas e valorizadas pelo mercado”, destacou. Para ela, é fundamental que as empresas façam um “caminho de volta”, ou seja, que saiam dos seus espaços tradicionais e se conectem verdadeiramente com esses criadores.
Anderson Shon, escritor e quadrinista, reforçou essa visão ao contar sua trajetória na literatura e como tem usado sua arte para ampliar a representatividade negra. “Eu faço questão que meus personagens tenham o nariz, o cabelo e a cor das pessoas da minha comunidade. Se a literatura não fala comigo e com os meus, então ela não me serve”, afirmou. Para ele, a criatividade das periferias é um reflexo direto da realidade dessas populações, e precisa ser enxergada como um motor de transformação social e econômica.
O desafio da profissionalização e do acesso ao mercado
Apesar do grande potencial criativo, muitas iniciativas nas comunidades acabam enfrentando dificuldades para se consolidar como negócios lucrativos. Paula Carvalho(Executiva de planejamento na Morya Comunicação), ressaltou que o setor já entendeu a importância dessas narrativas, mas que ainda há um abismo entre a produção criativa e a forma como o mercado as recebe. “O mercado precisa mudar a forma como enxerga esses projetos. Muitos negócios incríveis nascem nas periferias, mas acabam morrendo na praia porque falta estrutura e suporte para que essas ideias sejam transformadas em produtos e serviços viáveis”, explicou.
Suzana também pontuou que a questão vai além da capacitação técnica. “As comunidades têm estratégias próprias de sobrevivência, mas muitas vezes não se sentem pertencentes aos espaços institucionais. Não basta dar uma bolsa de estudos ou um curso se, quando esses jovens chegam lá, eles não se veem representados e não são acolhidos”, alertou.
Caminhos para um futuro mais inclusivo
Para que a criatividade periférica ganhe escala de forma sustentável, é preciso criar pontes entre os talentos das comunidades e o mercado. Anderson Shon reforçou que a valorização deve acontecer dentro da própria periferia. “Quando a gente faz um evento no Instituto JCPM, os fornecedores são de Pernambués, de Saramandaia, de São Cristóvão. É importante que o dinheiro circule dentro da comunidade, que o desenvolvimento aconteça de dentro para fora”, afirmou.
Já Paula destacou que as agências e marcas precisam encontrar maneiras mais eficazes de dialogar com esses talentos. “A publicidade precisa evoluir para criar conexões genuínas com essas narrativas. Não basta apenas incorporar elementos da cultura periférica nas campanhas; é preciso trazer essas vozes para dentro das decisões estratégicas”, disse.
O debate no Scream Festival 2024 deixou claro que as comunidades de Salvador são verdadeiros celeiros de inovação e que há um mercado ávido por essas tendências. O desafio agora é garantir que essa criatividade se transforme em oportunidades reais, promovendo inclusão, valorização e crescimento econômico sustentável.