Em um mundo hiperconectado, a música atravessa fronteiras como nunca antes. Mas, para um artista, equilibrar identidade cultural e alcance global pode ser um grande desafio. No painel “Como fazer sucesso na música em 2025?”, realizado no Scream Festival 2024, Danillo Barata e Rafaela Ventura discutiram como artistas podem preservar suas raízes e, ao mesmo tempo, conquistar reconhecimento internacional.
O dilema entre o local e o global
A globalização permitiu que artistas brasileiros fossem descobertos por públicos ao redor do mundo, mas também gerou uma concentração de estilos dominantes. Segundo Danillo Barata, a hegemonia de determinados gêneros musicais pode dificultar a diversidade cultural dentro das plataformas digitais.
“Apesar de termos um mercado globalizado e acesso a diversos gêneros musicais, ainda vemos a predominância do sertanejo no Brasil, por exemplo. Isso faz com que muitos outros estilos tenham dificuldades para ganhar espaço”, destacou Danillo, citando um relatório do Ecad.
Ao mesmo tempo, ele acredita que a autenticidade e a valorização das raízes culturais são diferenciais competitivos. “Quando você canta a sua aldeia, você tem a capacidade de se conectar com diversos lugares do mundo”, afirmou, citando exemplos como Caetano Veloso e Maria Bethânia, que sempre mantiveram suas identidades culturais e alcançaram reconhecimento internacional.
João Gomes e a força da música regional
Um dos exemplos mais recentes de sucesso internacional sem perder a essência é João Gomes. O cantor, que surgiu com um estilo voltado para a vaquejada, conquistou espaço no Grammy Latino sem abrir mão de suas raízes.
“Ele é um exemplo muito bom de quem se manteve fiel à sua identidade e conseguiu alcançar patamares gigantescos”, comentou Rafaela Ventura.
Esse fenômeno não é isolado. A música brasileira sempre foi marcada por artistas que misturam elementos locais com influências globais, criando sonoridades únicas que atraem audiências dentro e fora do país.
Conexões internacionais e inovação musical
Outro caminho para equilibrar identidade e alcance global é a troca cultural. Danillo Barata mencionou o trabalho do produtor musical Rafinha RSQ, que viaja para conhecer novas sonoridades e incorpora elementos de diferentes culturas em suas produções.
“Ele produz para artistas como Luan Santana e Simone, mas traz referências que absorveu em Cuba, por exemplo. Isso cria uma sonoridade híbrida, capaz de dialogar com públicos diversos”, explicou Danillo.
A inovação também passa pelo uso da tecnologia. Inteligência artificial e novas ferramentas de produção musical permitem que artistas experimentem misturas sonoras inéditas, ampliando suas possibilidades criativas e de mercado.
A importância das mídias tradicionais e digitais
Mesmo com o crescimento do streaming, as rádios e a TV ainda são fundamentais para consolidar um artista nacionalmente. Jeferson Beltrão, mediador do painel, mencionou que recebe frequentemente materiais de divulgação de gravadoras e assessorias para tocar novas músicas na rádio.
Rafaela Ventura complementou com o exemplo de João Gomes: “Ele esgota shows gigantes, toca no Rock in Rio, mas muita gente só descobriu quem ele era depois de assistir sua apresentação na TV.”
Isso demonstra que, além do digital, os meios tradicionais ainda desempenham um papel crucial na ampliação do alcance de um artista.
Para equilibrar identidade cultural e alcance global, os artistas precisam valorizar suas raízes, buscar conexões estratégicas e explorar tanto as plataformas digitais quanto os meios tradicionais. Como disse Danillo Barata no Scream 2024, “a grande alegria de ser artista está em conseguir cantar a sua aldeia e, ainda assim, alcançar o mundo.”