A cultura que nasce nas favelas e periferias de Salvador tem influenciado fortemente a música, a moda e a publicidade no Brasil. O que antes era visto como marginal ou alternativo, hoje é adotado por grandes marcas e se torna referência para a indústria criativa. No entanto, a pergunta que ainda precisa ser respondida é: quem realmente se beneficia desse processo? Durante o Scream Festival 2024, o painel “As tendências que nascem em Salvador: criatividade e inovação de nossas comunidades” abordou essa questão sob diferentes perspectivas.
A força criativa das periferias
Segundo Anderson Shon, escritor e quadrinista, a influência cultural das comunidades não é algo novo, mas apenas agora está sendo reconhecida. “Eu cresci vendo referências negras e periféricas na cultura pop, mas elas sempre vinham disfarçadas. O Piccolo, do Dragon Ball Z, e o Skeeter, de Doug Funnie, eram personagens claramente inspirados na cultura negra, mas não eram representados como tal. Isso acontecia porque, por muito tempo, a mídia e a publicidade invisibilizaram essas influências”, comentou.
Essa apropriação da cultura periférica sem o devido crédito e retorno financeiro para seus criadores é um ponto central na discussão. Para Suzana Coelho, CEO do Instituto Afetto, a valorização da cultura das favelas precisa ir além do discurso. “As empresas precisam fazer ESG na prática. Isso significa contratar profissionais das comunidades, investir diretamente nesses talentos e garantir que eles sejam protagonistas das suas próprias narrativas, e não apenas forneçam insumos para campanhas publicitárias”, pontuou.
A desconexão entre mercado e comunidade
O reconhecimento da criatividade periférica pelo mercado publicitário tem sido um passo importante, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Paula Carvalho(Executiva de planejamento na Morya Comunicação), comentou sobre a necessidade de criar processos mais inclusivos dentro das agências e marcas. “Hoje, a publicidade não dita mais as tendências, ela precisa buscar o que já está acontecendo nas comunidades e trazer isso para suas campanhas. O problema é que, muitas vezes, esse processo é feito sem que os criadores originais sejam beneficiados”, afirmou.
Suzana reforçou que a forma como as empresas se relacionam com as comunidades precisa mudar. “A comunicação ainda é muito centralizada em quem tem mais acesso. Pessoas brancas e grandes empresas podem abrir portas que levaríamos anos para abrir sozinhos. Mas, se essas portas forem abertas e a gente entrar, aí ninguém mais nos tira de lá”, disse.
Quem ganha com a cultura periférica no mainstream?
Anderson Shon fez uma provocação importante: “Quando falamos em tendências, falamos sobre o que vai nos levar a algo. Mas quando essa tendência chega ao topo, quem está lá para se beneficiar? Se olharmos para as grandes marcas que usam referências das periferias, ainda vemos um topo muito embranquecido”.
Paula Carvalho(Executiva de planejamento na Morya Comunicação), concordou e destacou que a publicidade tem tentado avançar nesse sentido, mas que ainda há um abismo. “Já passamos do tempo em que a cultura periférica era ignorada, mas agora o desafio é garantir que ela seja valorizada de forma justa. Precisamos criar estruturas que permitam que esses criadores cresçam e sejam reconhecidos como os verdadeiros influenciadores das tendências que estão moldando o mercado”, afirmou.
O painel no Scream Festival 2024 mostrou que a cultura das favelas sempre foi mainstream — o que mudou foi o olhar do mercado sobre ela. O desafio agora é garantir que essa valorização seja acompanhada de reconhecimento e oportunidades reais para os criadores periféricos. Afinal, a inovação cultural não pode ser apenas absorvida; ela precisa ser compartilhada e transformar vidas.